CLP – Uma forma iterativa para os novos prefeitos solucionarem problemas complexos

Uma forma iterativa para os novos prefeitos solucionarem problemas complexos

18/01/2017 - Escrito por José Rodolfo Fiori, alumnus do CLP e sócio da Muove Consultoria

 

Nas eleições de 2016, somente 47% dos 2.945 prefeitos que se candidataram à reeleição conseguiram voltar ao comando do executivo de seus municípios, número 8 pontos percentuais abaixo de 2012 (55% dos 2.736 que pleitearam reeleição). Além do baixo índice de reeleição, os votos nulos e brancos bateram recorde. Nota-se também que alguns candidatos de municípios importantes foram eleitos com um discurso de negação da política. Todos estes fatos podem ser sinais de que, na média, a população está frustrada com a classe política e a forma como os municípios tem sido geridos. Acredito ser um bom momento para que a cada político, ou não político, reflita sobre a forma como administra seus municípios.
 

Os prefeitos empossados em 2017 não encontraram um cenário muito favorável. O efeito cascata do crescimento econômico do País na primeira década dos anos 2000 fez com que as receitas dos municípios crescessem. Acompanhando as receitas, as despesas também cresceram, em especial as despesas com Pessoal e Encargos Sociais: em 2000, 38% da despesa orçamentária dos municípios era dedicada a Pessoal e Encargos Sociais; já em 2015, esta despesa correspondeu a 51% do total (tesouro nacional). Sem julgamentos sobre este ser um movimento de aumento necessário ou não, o fato é que atualmente é muito mais complexo realizar adequações dos gastos em um cenário de recessão econômica como o atual.

A redução drástica da arrecadação via transferências de outras esferas de governo e tributos locais colocou a maioria dos municípios brasileiros em situação de, no mínimo, alerta. Fontes de receita como o Fundo de Participação dos Municípios vindo da União e Cota-Parte ICMS vindo do Estado, bem como a redução da arrecadação de tributos locais como ITBI, ISS e IPTU continuarão caindo em 2017. De acordo com análise da CNM em Outubro de 2016, dos 3.155 municípios que haviam informado suas contas ao Tesouro Nacional, 77,4% já estavam com as contas no vermelho.

 

O Modelo de Ataque Interativo de Problemas 

 

Neste cenário, acredito que as recomendações de Matt Andrews, Lant Princhett e Michael Woolcock em seu artigo Escaping Capability Traps through Problem-Driven Iterative Adaptation (PDIA)  ,onde apresenta uma metodologia de definição de problemas complexos e uma forma iterativa de solucioná-los,  podem ser de grande valia para os novos prefeitos. Os três professores da escola de governo de Harvard sugerem 04 passos para lidar com problemas do tipo que nossos prefeitos enfrentarão a partir de 2017, são eles:

1) Definição do problema: é importante que as lideranças façam um bom diagnóstico das condições municipais com intuito de entender onde realmente está o problema. É normal vermos nas administrações municipais times inteiros focados em temas que não são o verdadeiro problema do município. Por exemplo, sabemos que, muitas vezes, o imaginário dos líderes do nosso executivo é dominado pela vontade de executar obras quando, em muitos casos, estas não são o que realmente importa para melhorar a situação da economia e do fornecimento de serviços no município. É importante que prefeitos e secretários realizem diagnósticos baseados em dados e ouvindo suas equipes e população. Uma vez que o real problema for identificado, este deve ser o foco da atuação municipal.

 2) Engajamento dos atores da mudança: com o problema identificado, prefeitos e secretários precisam montar suas equipes com profissionais que tenham a capacitação necessária para resolver o problema em questão. Este é um processo que demanda dedicaçao e envolvimento direto da liderança. Sabemos também que as áreas de recursos humanos das administrações municipais são em sua maioria estruturadas para serem um departamento de pessoal, não desempenhando as funções estratégicas de gestão de pessoas que o município precisa. Este fato torna a necessidade de envolvimento dos prefeitos, secretários e dirigentes municipais nos processos de escolha das equipes ainda mais crucial. Além de montar times internos para os desafios postos, é importante envolver os atores externos à administração municipal. O engajamento de lideranças do judiciário, legislativo, empresários locais, organizações sociais e população na melhoria das condições locais é tão importante quanto a formação de bons times internos. Um bom engajamento dos atores corretos trará relevância, viabilidade e legitimidade ao projeto.

3) Permitir a inovação: para alcançar resultados diferentes é importante realizar ações diferentes. As lideranças locais devem buscar a inovação e, neste sentido, incentivar suas equipes a buscarem novas soluções para os problemas a serem atacados. Aqui a inovação não é, necessariamente, aquela relacionada à pesquisa e tecnologia. A inovação neste caso é fazer diferente, buscar melhores práticas em municípios similares, questionar processos, dar voz aos quadros técnicos (estes têm muitas respostas) e criar as condições para que todos se sintam a vontade para experimentar e fazer diferente.

4)  Criar ciclos curtos de avaliação: como os problemas são complexos e haverá muita experimentação na resolução dos problemas (passo 3), é importante que se crie mecanismos que possibilitem ciclos curtos de avaliação dos resultados das ações empreendidas. Caso não sejam avaliadas constantemente nestes ciclos curtos, há o risco de se dedicar muito tempo a ações que não estão surtindo o efeito necessário no problema que foi identificado. Uma vez que a administração municipal identificar que ações não estão surtindo efeito, é importante que se volte ao passo 3 e rediscuta ações adicionais que podem resolver o problema. Da mesma forma, para ações de sucesso, faz se necessário intensificá-las.  

O CLP utilizou essa metodologia no projeto Gestão Municipal para a Nova Economia, realizado com 07 municípios do estado de Santa Catarina. 

Por fim, será necessário muita estratégia, gestão e transparência para promover as transformações que nossos municípios precisam. As lideranças empossadas em 2017 terão a oportunidade de, em meio a atual crise, reinventar a forma como os municípios são administrados. Boa sorte a todos!

 

 

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