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Nos cafés do poder: observações não pontuais de um líder MLG no congresso nacional. 

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Esse conteúdo faz parte do Blog do CLP, um espaço onde as lideranças formadas pelos cursos do CLP compartilham boas práticas, aprendizados e soluções. Nesse caso, criadas ou otimizadas através da participação no Master em Liderança e Gestão Pública. O texto, do líder Thiago Simão traz um olhar diferente sobre sua atuação como Chefe de Gabinete do Deputado Federal Geninho Zuliani (DEM-S). No texto ele usa o “Senhor Café” como elemento de conexão lógica de sua narrativa. Confira.

 

Atenção leitor: este artigo não é destinado para os que vivem no mundo surreal dos engajamentos via dinâmicas de Post-it.

E neste momento de puro devaneio surge o símbolo que poderá definir a minha linha mestra deste artigo, que não obedece às premissas de um “paper à la Lattes”: o CAFÉ (a.k.a. cafezin).

Desde o início da 56ª Legislatura da Câmara, já não tenho a contagem mínima de quantos cafés degustados. Outros tantos cafés foram sumariamente engolidos entre reuniões e encontros.

Não pretendo demonstrar com este escrito as experiências vivenciadas na Chefia de Gabinete. Também seria demasiado enfadonho demonstrar as regras e ações do trabalho legislativo. Uma rotina de um Chefe de Gabinete é facilmente reconhecida mediante observação não científica.
Grande parte da minha vivência é inefável, sendo quase indescritível ou não delineável. Daí o porquê vou usar o Senhor Café como elemento de conexão lógica de minha narrativa: para possibilitar uma ressignificação.

 

As pistas da articulação no Congresso

Estou certo de que o café é o elemento de união, oportunidade em que ideologias, crenças, valores e demais diferenciadores são relegados a um segundo plano. A única diferença ontológica é resumida na seguinte frase: puro, com açúcar ou adoçante?

É muito comum, no âmbito parlamentar, que os mandatários, resultado do sufrágio universal e do voto direto e secreto, com valor igual para todos, possam se manifestar de forma livre, por vezes utilizando gritos histéricos ou mesmo sugestionando a ação das “vias de fato”. Jacobinos e Girondinos estão presentes, sendo que o choro e ranger de dentes é apenas aplacado com um bom café.

Acompanhei inúmeras reuniões com Deputados, Senadores, integrantes de Ministérios, Agências Reguladoras. As divergências eram sentidas no primeiro aperto de mãos. Mas a conclusão de que um diálogo poderia ser aberto e que haveria uma forma de composição era quando um dos convivas dizia: “Eu aceito um café”.

Neste momento surgem a figura dos ativistas “lato sensu” e dos burocratas. Os longos discursos são iniciados e as palavras de encantamento começam a surgir. E qual a forma moderna de dizer abracadabra? Propósito, liderança, ética, cabala, universo, energia, legado, entre outros.

 

Linguagem, liderança e articulação

O “Rei dos Post-its” simplesmente ignora o Parlamentar. Começa a “vomitar” teorias, propostas e autores. Inovação, Cidades Inteligentes, Democracia Aberta, ODMs, são mantras. Mandatório que sejam utilizadas expressões em inglês: benchmark, balanced scorecard, budget, B2G (vamos parar na letra B). O café já secou na xícara.

Neste momento, acaba o diálogo. Os olhares retornam ao WhatsApp.

Presencialmente, nestas reuniões, obedecendo às lições de Ronald Heifetz e Marty Linsky, vou para o “Balcão”. Faço questão de exercer a habilidade proposta pelos dois professores da Harvard University’s John F. Kennedy School of Government: “Getting off the dance floor and going to the balcony”. Será que os Líderes vão conseguir internalizar que entre cada um dos 513 Deputados Federais e 81 senadores existe um ser humano? Não deixem o café esfriar, por favor.

Eu fui feliz em presenciar inúmeros acordos, todos republicanos, serem formalizados em mesas de café. A velha forma de conversar. Pessoas com virtudes e defeitos. Crenças limitadoras foram diluídas em cafés.

Nos cafés do poder: observações não pontuais de um líder MLG no congresso nacional. 

Os caminhos para articular mudanças necessárias

Infelizmente, muitos ditos Líderes ainda acreditam que a inserção em redes sociais, com constrangimentos políticos (parafraseando o constrangimento meramente hermenêutico aplicado no Poder Judiciário), poderá mudar a realidade política. Um tweet não tem a força da Vara de Aarão.

O Brasil não é para principiantes. Brasília não é para amadores. Mas quem se principia no amadorismo, um dia torna-se profissional. Apreciar um café. Ouvir os Parlamentares. Entender suas crenças e valores. Buscar a história de cada um. Não promover o julgamento partidário ou pessoal. Este é o caminho a ser trilhado pelos Líderes que pretendem promover a mudança necessária.

Todos os dias eu caminho no que convencionei chamar de “Corredor Verde”. São os corredores do Anexo IV, cobertos com um carpete verde, abarrotado de ácaros e fungos. Lá vou meditando sobre minha vida profissional. A cada gabinete que atravesso, lendo frases como “Sou Bolsonaro” e “Lula Livre” recebo ensinamentos peripatéticos, muito mais profundos do que em um workshop de 24 horas em Campos do Jordão-SP para ensinar “mindfulness light”.

Estou convencido que os cafés apreciados no âmbito do Poder Legislativo são muito mais eficientes e eficazes do que qualquer manual de gestão de pessoais segundo as últimas tendência da neurociência comportamental.

O segredo para ser ouvido no Congresso

Não seja soberbo, Jovem Gafanhoto, achando que sua experiência e parcial vivência nos sistemas de gestão pública na Suécia ou Singapura podem permitir a venda do elixir da verdade no Parlamento brasileiro.

Sugiro que traga um bom café para ser apreciado. Sua narrativa de um congresso de “public policy” na Islândia vai impactar muito menos do que a degustação de um café do Cerrado Mineiro ou da Alta Mogiana.

Nestes últimos meses, encontrei vários amigos vagando, em passos perdidos, no Congresso Nacional. Desconheciam a dinâmica do “Salão Verde”, “Salão Negro” ou “Chapelaria”. Estavam mortificados com a crise democrática. Tentei argumentar. Recebi como resposta que “estava seguindo o script” dos livros de Liderança, comprados em bancas de aeroporto. Lamentei!

Para uma colega em especial sugeri: “Quer entender? Tem coragem? Possui estômago? Deixe o TED Talks e vá ler Jeffrey Pfeffer (Leadership BS) e Barbara Kellerman (The End of Leadership).

Eu entendo o perigo da liderança. Não é uma brincadeira. Mas não podemos achar que esta arte possa ser aprendida sem a dor necessária. Então utilizemos o Sr. Café como aliado.

Meu colega, Líder MLG, sente-se. Tome um café com um Parlamentar. Seja absolutamente sincero. Ouça e deixe ser ouvido. Ao final, seguramente obterá as seguintes frases mágicas de nossos agentes políticos:

– Como eu posso te ajudar?
– Ótimo!
– Que bom! Eu acredito!
– Feito!
– Combinado!
– Eu farei!

Esta é a mudança que o Brasil quer.

 


 

Foto Thiago Simão líder MLG/CLP

 

Thiago Simão, tem o propósito de relacionar o direito com a gestão pública, traçando elementos conectivos da racionalidade jurídica com as tendências contemporâneas em políticas públicas, gestão econômica e relações governamentais, permitindo um planejamento estratégico na nova formatação entre Estado e Administração Pública. Ele também é líder MLG. Atualmente é Chefe de Gabinete do Deputado Federal Geninho Zuliani (DEM-SP) na Câmara dos Deputados.

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