O fim da 6×1 tem ainda um custo pouco discutido: a rigidez da escala

O fim da 6×1 tem ainda um custo pouco discutido: a rigidez da escala

O deputado Leo Prates (Republicanos-BA), com apoio do Governo Federal, apresentou o relatório para a PEC do fim da escala 6×1 na última segunda (26). Pelo texto, a jornada cairia para 42 horas 60 dias após a promulgação e, 12 meses depois, chegaria a 40 horas, sem redução salarial. A proposta à emenda da Constituição não trata, no entanto, apenas da redução da jornada semanal. Outro aspecto pouco discutido é também a mudança na forma como a semana de trabalho pode ser organizada, com a escala 6×1 sendo substituída pela garantia de duas folgas semanais, com uma delas preferencialmente aos domingos.

A redução de jornada é uma demanda social compreensível, ainda que tenha um custo econômico. Há bons motivos para discutir descanso, fadiga, saúde mental e tempo livre. O primeiro é o mais conhecido: reduzir a jornada semanal sem reduzir o salário mensal eleva mecanicamente o custo do trabalho por hora. Já existem estudos e simulações sobre tal impacto, inclusive do CLP, apontando efeitos moderados, mas presentes. Em simulação para o setor formal brasileiro, usando como referência evidência empírica de Portugal, a queda de jornada implicaria impacto aproximado de -1,1% no emprego formal (cerca de 640 mil vagas) e -0,7% na produtividade por trabalhador.

Mas o desenho apresentado na PEC cria dois choques simultâneos. Além da redução da jornada, a outra mudança, menos debatida, é regulatória: ao impor duas folgas semanais, a proposta não apenas diminui o número de horas, mas torna mais rígida a forma como essas horas podem ser distribuídas. O que ainda não foi devidamente quantificado é o impacto adicional de transformar a escala em si em objeto de proibição constitucional ampla. Determinar que as horas de trabalho semanais não possam, em regra, ser distribuídas em seis dias importa porque muitas atividades, como comércio, alimentação, hotelaria, saúde, segurança, transporte e serviços pessoais, dependem de funcionamento em horários estendidos, fins de semana ou turnos. Nesses casos, o custo não é apenas pagar mais caro por hora, mas também reorganizar escalas, negociar turnos e lidar com sobreposições e cobrir horários de pico com menor flexibilidade.

A comparação internacional, mostrada na tabela no apêndice mostra que o Brasil ficaria mais distante do padrão regulatório mundial caso combinasse 40 horas semanais com dois dias obrigatórios de folga para todos. O modelo mais comum no mundo é outro: limite diário, limite semanal e garantia de pelo menos um dia de descanso semanal. Padrões internacionais, como os da OIT e da União Europeia, trabalham com mínimos de descanso, mas não impõem universalmente dois dias semanais de folga.

Mesmo países com jornadas semanais mais baixas não necessariamente proíbem uma semana distribuída em seis dias. A França é um bom exemplo, uma vez que, embora tenha uma jornada legal de 35 horas, muito abaixo da brasileira e da maioria do mundo, a legislação francesa ainda permite até seis dias de trabalho por semana, respeitados limites diários, semanais e um bloco mínimo de descanso. Uma semana curta não é automaticamente uma semana de cinco dias. Japão, China, México e outros países com regimes de 40 horas ou próximos disso também mantêm, em diferentes formatos, a lógica de um dia mínimo de descanso, e não uma regra universal de dois dias.

Essa rigidez pode prejudicar inclusive parte dos trabalhadores que a proposta pretende beneficiar. A defesa da redução da jornada costuma supor que menos dias trabalhados sempre significam mais bem-estar. Mas, para muitos trabalhadores, especialmente mulheres, a questão não é apenas quantas horas se trabalha, mas quando se trabalha. Mulheres seguem dedicando mais tempo que homens a afazeres domésticos e cuidados de pessoas; em 2022, segundo o IBGE, elas dedicavam 21,3 horas semanais a essas tarefas, contra 11,7 horas dos homens.

Por isso, uma jornada de cinco dias com oito horas cheias pode ser pior, em alguns casos, do que uma jornada distribuída em mais dias com turnos menores. Uma trabalhadora que precisa buscar o filho na escola no fim da tarde, cuidar de um familiar ou coordenar dois empregos parciais pode preferir seis jornadas diárias mais curtas a cinco mais longas. A regra rígida de duas folgas semanais pode reduzir a possibilidade de arranjos que, embora imperfeitos, cabem melhor na realidade de muitos trabalhadores.

Do ponto de vista das empresas, a proposta soma duas pressões: aumenta o custo da hora trabalhada e diminui a flexibilidade de escala. Em firmas grandes e produtivas, parte disso pode ser absorvida com tecnologia, gestão e reorganização. Em pequenas empresas, comércio de bairro, restaurantes, serviços pessoais e setores de baixa margem, a resposta pode vir por caminhos menos desejáveis: informalização, pejotização, redução de contratações, cortes de benefícios, mais rotatividade ou compressão de horários. Outro estudo do CLP já indica que setores com jornadas longas, como comércio, construção, agropecuária e parte dos serviços, estão entre os mais expostos ao choque de custo.

O prazo de transição também é um problema. Quatorze meses podem parecer muito no debate político, mas são pouco para uma mudança constitucional que altera o custo e a organização do trabalho em praticamente todos os setores. Mais grave: a aplicação ampla e quase simultânea impede que o país aprenda com a própria política. Uma transição por setores, subsetores ou tamanho de empresa permitiria observar efeitos reais sobre emprego formal, salários, admissões, desligamentos, informalidade e preços. Esse tipo de faseamento criaria variação de implementação, o que permitiria avaliar a política pública e corrigir a rota antes de universalizar os custos.

Uma alternativa mais prudente seria começar pelos setores menos expostos a contratos longos, onde o custo de adaptação tende a ser menor, e avançar gradualmente para os setores mais dependentes de escala 6×1. Essa regra teria uma virtude política e técnica: começaria onde o risco é menor, mediria os efeitos e, só então, entraria nos setores mais sensíveis. Se os impactos fossem pequenos, haveria legitimidade para acelerar. Se fossem relevantes, haveria tempo para calibrar exceções, fortalecer fiscalização, ajustar regras de compensação e desenhar políticas de produtividade.

Reduzir jornada e ampliar descanso são objetivos legítimos, mas o desenho importa. Ao tratar a redução de horas e a proibição da distribuição em seis dias como se fossem a mesma política, o relatório mistura dois choques diferentes: um de custo e outro de rigidez. O risco é transformar uma pauta socialmente compreensível em uma regra que encarece o trabalho formal, reduz a flexibilidade de trabalhadores e empregadores e empurra parte da adaptação para a informalidade.

Ao fazer as duas coisas ao mesmo tempo, com transição curta e regra ampla, o Brasil está indo além do padrão internacional e assumindo riscos que ainda não foram devidamente medidos. A discussão deveria migrar para como construir uma transição que melhore a vida do trabalhador sem reduzir a própria proteção formal que a proposta busca fortalecer.

Comparação internacional da legislação sobre jornada de trabalho

PaísLimite de horas semanaisLimite de horas diáriasDescanso semanal mínimoRegra de dias consecutivosEscalas divididas, irregulares, comprimidas ou atípicasRegime geral de distribuição
Brasil448, com até 2 horas extras por dia1 descanso semanal remunerado, preferencialmente aos domingosA estrutura geral permite semanas de seis dias de trabalho mais um dia de descansoAcordos de compensação e escalas especiais existem na prática da CLTEstruturado, mas permite semanas de seis dias
Argentina488; distribuição desigual pode chegar a 9 horas por dia35 horas consecutivas a partir de sábado às 13hAs horas semanais podem ser distribuídas de forma desigual, mas a regra de descanso semanal restringe uma escala 6×1 plenaEstatutos setoriais e acordos coletivos importamMais restritivo à distribuição do que um modelo 6×1 puro
Chile42 a partir de 26/4/2026, em trajetória para 4010Descanso semanal geral aos domingos e feriados no regime ordinárioA semana de 42 horas é distribuída em 5 ou 6 dias; quando 40 horas se aplicarem, o trabalho ordinário poderá ser distribuído em 4 a 6 diasAdoção antecipada de 40 horas pode liberar escala de quatro dias; regimes especiais também existemRegula diretamente faixas de distribuição
Colômbia44 atualmente; 42 a partir de 15/7/2026Limites diários gerais coexistem com escalas flexíveis acordadas de 4 a 9 horas1 descanso semanal obrigatórioO máximo semanal pode ser distribuído por acordo em 5 ou 6 dias; semanas de seis dias seguem legaisEscalas diárias flexíveis e turnos são parte central da legislaçãoEstruturado, mas permite semanas de seis dias
MéxicoReforma de 40 horas promulgada em 2026, com transição até o fim de 2026; antes, a semana ordinária era de 48 horas8 diurno, 7 noturno, 7,5 mistoA orientação oficial de 2026 ainda se refere a pelo menos 1 dia de descansoOs materiais oficiais analisados não criam claramente uma regra universal de dois dias de descanso; portanto, a distribuição em seis dias segue possível em princípio, salvo regra específicaDistribuição por acordo segue importante na prática40 horas, mas não claramente uma semana rígida de cinco dias
Peru48824 horas consecutivas, preferencialmente aos domingosO modelo geral ainda se concentra em um dia semanal de descanso; padrões de seis dias permanecem possíveisMateriais oficiais reconhecem sistemas atípicos, como 10×10, desde que respeitados os limitesEstruturado, mas permite semanas de seis dias
Estados UnidosNenhum limite federal; horas extras após 40 horas semanaisNenhum limite federalNenhum descanso semanal federalNão há limite federal sobre dias consecutivos ou horas diárias para adultosDistribuição fica amplamente a cargo de contrato e legislação estadualAltamente flexível
FrançaSemana legal de 35 horas; máximos de 48 horas em uma semana e 44 horas em média em 12 semanas1035 horas consecutivas de descanso semanalO trabalhador não pode trabalhar mais de 6 dias por semanaArranjos de tempo de trabalho, RTT e ajustes coletivos são comunsRígido na distribuição, mas ainda compatível com semana curta de seis dias
AlemanhaNão há máximo semanal isolado na lei; o limite de 8 horas diárias em uma semana de seis dias implica média de 48 horas, podendo chegar a 10 por dia se compensado para média de 88, prorrogável a 10 se compensado para média de 811 horas de descanso diário mais descanso aos domingos/feriados; pelo menos 15 domingos por ano devem permanecer livresSegunda a sábado são dias normais de trabalho; trabalho aos domingos é geralmente proibido, com exceçõesCompensação e derrogações são centrais, especialmente via acordos coletivos e setores excepcionadosRígido por limites diários e proteção dominical, não por dois dias de descanso
Espanha40 horas médias semanais em cômputo anual9, salvo acordo coletivo ou com representantes dos trabalhadores1,5 dia ininterrupto, acumulável em 14 diasA lei não impõe descanso semanal universal de dois dias; a escala pode ser compensada em médiaO empregador pode distribuir irregularmente 10% das horas anuais se não houver acordo em contrárioModeradamente estruturado, mas flexível por compensação
Portugal4081 dia obrigatório de descanso semanal; descanso complementar pode ser adicionado por contrato ou instrumento coletivoNão há regra universal de dois dias, mas o Código autoriza expressamente semanas comprimidas e padrões especiais de descansoPode comprimir a semana em até 4 dias ou, por instrumento coletivo, permitir até 3 dias consecutivos de trabalho seguidos por pelo menos 2 dias de descanso em referência de 45 diasEstruturado, com ferramentas explícitas de flexibilidade
Reino Unido48 horas em média em 17 semanas, com possibilidade de renúncia individualNenhum máximo diário geral para adultos24 horas a cada 7 dias ou 48 horas a cada 14 diasNão há proibição rígida de semanas de seis dias; a proteção central é o máximo semanal médio e os descansos mínimosÉ legal renunciar ao limite de 48 horas, mas não aos direitos mínimos de descansoFlexível
Países Baixos60 em uma semana, mas limites médios se aplicam em períodos de referência12 por turno36 horas consecutivas de descanso semanalNão há regra universal de dois dias; a proteção vem por descanso e médias em períodos de referênciaEscalas devem ser registradas e acessíveis; trabalho noturno tem controles extrasModeradamente flexível, fortemente baseado em períodos de referência
África do Sul45 horas ordinárias por semana9 por dia se trabalha 5 dias ou menos; 8 por dia se trabalha mais de 5 dias36 horas consecutivas semanais, incluindo domingo, salvo acordo em contrárioModelo de um dia de descanso; padrões de seis dias permanecem possíveisA lei permite expressamente semanas comprimidas e compensação por acordoEstruturado, mas flexível por acordo
QuêniaA lei trabalhista deixa horas a outras normas escritas; a ordem salarial geral costuma usar 52 horas em 6 dias para trabalho diurno e 60 para noturnoNão especificado na lei principalPelo menos 1 dia de descanso a cada 7 diasA proteção legal de base é um dia; padrões de seis dias são comuns na prática das ordens salariaisDetalhes relevantes frequentemente vêm de ordens salariais, não da lei trabalhista principalFlexível e regulado por camadas
Japão40 em geral; 44 em certos pequenos negócios81 dia por semana ou 4 dias em 4 semanasModelo de um dia de descanso; escalas de seis dias seguem legalmente possíveisSistemas de horas variáveis e arranjos anualizados são importantesEstruturado, mas permite semanas de seis dias
Coreia do Sul40 horas padrão; 52 incluindo extensão permitida8 horas padrão1 feriado remunerado por semana, em médiaA lei é centrada no modelo 40+12, não em regra de dois dias de descanso semanalSistemas flexíveis de jornada existem; alguns setores excepcionados devem oferecer 11 horas de descanso diárioEstruturado, mas centrado em um dia de descanso
China40 no sistema padrão de horas8Pelo menos 1 dia de descanso por semanaEmpresas que não usam o padrão unificado segunda–sexta podem flexibilizar os dias de descanso; 1 dia semanal segue como baseSistemas especiais e abrangentes de horas podem ser aprovados quando o regime padrão é impraticável40 horas, mas não um modelo universal de dois dias de descanso
Singapura44 para empregados cobertos pela Parte IV da Lei de Emprego8 por dia se trabalha mais de 5 dias; 9 por dia se trabalha 5 dias ou menos1 dia de descanso por semanaSemanas de seis dias permanecem possíveis; a lei protege via total semanal, pagamento em dia de descanso e controle de horas extrasTrabalhadores em turnos podem fazer média em 3 semanas; trabalho além de 12 horas por dia normalmente exige exceçãoFlexível e com cobertura limitada
FilipinasNão há máximo semanal único no código central; o sistema se estrutura em torno de 8 horas por dia e descanso semanal após 6 dias de trabalho824 horas consecutivas após cada 6 dias consecutivos normais de trabalhoA lei estrutura expressamente um ciclo de seis dias com um dia de descanso semanalO órgão trabalhista permite semanas comprimidas sob orientação oficialEstruturado, mas mantém lógica clássica de semana de seis dias
Austrália38, mais horas adicionais razoáveisNenhum limite diário estatutário universal nas Normas Nacionais de EmpregoNenhuma regra universal de descanso semanal nas Normas Nacionais de EmpregoNão há limite rígido de dias consecutivos nas normas nacionais; muito depende de instrumentos setoriais e acordosCompensação, distribuição de horas, horas extras e adicionais dependem muito de prêmios setoriais ou acordosAltamente flexível em comparação com sistemas de direito civil
Nova ZelândiaContratos normalmente devem fixar no máximo 40 horas excluídas horas extras, salvo acordo em contrárioNenhum limite diário estatutário geralNenhuma regra estatutária geral de descanso semanal; pausas para descanso e refeição são exigidasHoras são principalmente contratuais; horas adicionais dependem do acordo e das regras de horas garantidasHoras extras além das garantidas podem ser recusadas; cláusulas de disponibilidade tipo “zero hora” foram restringidasAltamente flexível, centrado no contrato

Por Daniel Duque, head da Inteligência Técnica do CLP

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