El Niño está de volta. E o Brasil precisa estar preparado

El Niño está de volta. E o Brasil precisa estar preparado

O El Niño está novamente no centro das atenções da ciência climática mundial. E, para o Brasil, isso está longe de ser apenas uma discussão sobre o aumento da temperatura das águas do Oceano Pacífico.

No início de julho de 2026, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) confirmou que as condições de El Niño haviam se estabelecido no Pacífico tropical. As projeções apontam para uma rápida intensificação do fenômeno nos próximos meses, com possibilidade de um evento forte. Para o trimestre julho-agosto-setembro, o conjunto de modelos da OMM projetou anomalias médias da temperatura da superfície do mar próximas de 2°C em regiões-chave de monitoramento do Pacífico.

No Brasil, os órgãos oficiais também estão em alerta.

Nota técnica conjunta de INPE, INMET, Funceme e Censipam apontou probabilidade superior a 95% de ocorrência e persistência do El Niño ao longo do segundo semestre de 2026. O INMET indica ainda que o fenômeno poderá alcançar intensidade forte durante a primavera austral e persistir até o verão de 2026/2027.

E o Brasil conhece bem os efeitos dessa dinâmica.

Em linhas gerais, episódios de El Niño tendem a aumentar o risco de déficit de chuvas em partes das regiões Norte e Nordeste e favorecer volumes elevados de precipitação no Sul. Seus efeitos, entretanto, não são uniformes e dependem também das condições do Atlântico, da circulação atmosférica e de outros fatores climáticos.

Para 2026, o CEMADEN alerta justamente para esse contraste: maior risco de chuvas extremas, enchentes e deslizamentos no Sul; agravamento da seca e maior risco de incêndios no Norte e Nordeste; e maior frequência de ondas de calor e baixa umidade na região central do país.

A experiência recente mostra por que precisamos levar esses alertas a sério.

O El Niño de 2023-2024 esteve entre os cinco mais fortes já registrados. Naquele período, o Brasil enfrentou extremos em diferentes regiões, combinando déficits de precipitação e temperaturas excepcionalmente elevadas em partes do território com episódios de chuvas intensas no Sul.

Na Amazônia, a combinação entre seca e temperaturas extremas produziu imagens que correram o mundo. No lago Tefé, a temperatura da água atingiu níveis recordes e mais de 150 botos foram encontrados mortos.

No Sul, o exemplo mais dramático veio do Rio Grande do Sul.

Entre o final de abril e maio de 2024, chuvas extraordinárias provocaram inundações de proporções históricas no estado. O El Niño então em curso contribuiu para criar condições favoráveis ao excesso de precipitação na região, em combinação com outros fatores meteorológicos e com a influência das mudanças climáticas sobre os eventos extremos.

As enchentes atingiram centenas de municípios, deslocaram populações inteiras, interromperam estradas, comprometeram infraestruturas e atividades econômicas e provocaram enormes perdas humanas e materiais.

O episódio gaúcho é particularmente relevante quando olhamos para 2026.

Segundo o INMET, o Rio Grande do Sul está entre as áreas brasileiras mais sensíveis à atuação do El Niño. O fenômeno pode potencializar o transporte de umidade da região amazônica para o estado e contribuir para a manutenção de sistemas de baixa pressão, favorecendo tempestades e inundações.

Isso não significa, evidentemente, que 2024 necessariamente se repetirá em 2026.

Previsão climática trabalha com probabilidades, não com certezas. Um El Niño não produz exatamente os mesmos impactos em todos os seus episódios. Mas conhecer antecipadamente o aumento de determinados riscos deveria ser suficiente para orientar decisões de prevenção.

Há ainda outro elemento que torna o cenário atual especialmente preocupante.

O climatologista Carlos Nobre vem alertando há anos para uma questão fundamental: não podemos analisar esses eventos isoladamente do aquecimento global. Ao comentar as secas amazônicas, Nobre observou que episódios severos que historicamente seriam esperados com intervalos muito maiores passaram a ocorrer com enorme frequência. Em suas palavras:

Historicamente, você esperaria uma seca na Amazônia a cada duas décadas. Agora, estamos experimentando duas secas severas por década.

Essa distinção é importante.

O El Niño é um fenômeno natural do sistema climático. A mudança climática provocada pelas atividades humanas é outro processo. Não é cientificamente correto afirmar simplesmente que o aquecimento global “causa” o El Niño.

Mas existe uma diferença fundamental: o El Niño de hoje atua sobre um planeta muito mais quente. Oceanos e atmosfera mais aquecidos alteram as condições de fundo sobre as quais esses fenômenos naturais se desenvolvem. A própria OMM destaca que um oceano mais quente adiciona calor e umidade ao sistema climático, podendo agravar extremos como ondas de calor e chuvas intensas.

Foi justamente sobre isso que o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, fez um alerta específico em junho deste ano.

Ao comentar as projeções para 2026, afirmou:

El Niño conditions will pour fuel on the fire of a warming world.

Em tradução livre: “As condições de El Niño jogarão combustível no fogo de um mundo em aquecimento.”

Guterres também chamou atenção para a necessidade de reduzir emissões, acelerar a expansão das energias renováveis, proteger as populações mais vulneráveis e ampliar os sistemas de alerta precoce.

Poucas semanas depois, voltou ao tema. Em julho, lembrou que os últimos 11 anos foram os mais quentes já registrados e destacou que, enquanto o planeta continua aquecendo, um novo El Niño ganha força no Pacífico. Sua mensagem é especialmente relevante: cada fração de grau importa e cada hora de antecedência de um alerta também.

Essa talvez seja a principal reflexão para o Brasil em 2026.

Nós já sabemos que o El Niño está se fortalecendo.

Sabemos que existe risco aumentado de excesso de chuva no Sul.

Sabemos que Norte e Nordeste podem enfrentar condições mais secas e maior risco de incêndios.

Sabemos que áreas do centro do país podem experimentar mais calor e baixa umidade.

E sabemos que esses riscos agora ocorrem em um contexto de aquecimento global.

Portanto, o momento de preparação não é quando o rio transbordar, a encosta deslizar, o reservatório atingir níveis críticos ou uma onda de calor chegar. É agora.

O caso do Rio de Janeiro

No Rio de Janeiro, essa preparação já começou.

Diante das projeções para os próximos meses, o prefeito Eduardo Cavaliere antecipou a preparação da cidade para o verão e mobilizou a estrutura municipal de prevenção, monitoramento e resposta a eventos climáticos extremos.

Mais de 50 órgãos e agências municipais atuam de forma integrada, apoiados pelo Centro de Operações e Resiliência (COR), por sistemas de monitoramento em tempo real e por cerca de 50 protocolos operacionais. A estrutura inclui radares, pluviômetros, estações meteorológicas e sistemas de acompanhamento de núcleos de chuva, raios e riscos de deslizamentos.

A preparação também passa por intervenções em áreas mais vulneráveis. Entre as ações destacadas pelo prefeito estão obras de infraestrutura no Jardim Maravilha, Acari, Maré, Rocinha e Realengo, incluindo a construção de dois reservatórios de controle de cheias em Realengo, sendo um já em execução e outro em fase de projeto de expansão.

As medidas se somam ao treinamento permanente da Defesa Civil, à integração entre órgãos municipais e subprefeituras e aos investimentos da cidade em prevenção de enchentes, contenção de encostas, ampliação das áreas verdes e enfrentamento ao calor extremo.

Como afirmou Cavaliere ao apresentar as medidas, a cidade não consegue impedir os efeitos do El Niño sobre seu clima. O papel do poder público é justamente minimizar seus impactos por meio de prevenção, preparação e capacidade de resposta.

Há ainda uma oportunidade particularmente importante para o Rio de Janeiro nesse debate.

Em abril de 2027, a cidade sediará a Conferência da Década do Oceano de 2027, um dos principais encontros internacionais da Década das Nações Unidas da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável (2021–2030). Organizada pela Comissão Oceanográfica Intergovernamental da UNESCO, pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e pela Prefeitura do Rio, a conferência reunirá governos, cientistas, sociedade civil, setor privado, juventude e lideranças de diferentes partes do mundo.

Nesse encontro, o nexo entre oceano e clima precisa ocupar um lugar de protagonismo.

O oceano é parte central do sistema climático: absorve grande parcela do excesso de calor acumulado no planeta, influencia os regimes de chuva e temperatura e está diretamente relacionado a fenômenos como o El Niño. Ao mesmo tempo, o aquecimento e a acidificação dos oceanos, a elevação do nível do mar e os impactos sobre ecossistemas costeiros mostram que não é possível discutir mudança do clima sem discutir o oceano e vice-versa.

Para uma cidade costeira como o Rio de Janeiro, essa agenda é ainda mais concreta. Mudanças no nível do mar, ressacas, erosão costeira, chuvas extremas, ondas de calor e proteção dos ecossistemas marinhos e costeiros fazem parte de um mesmo desafio de adaptação e resiliência.

Receber a Conferência da Década do Oceano coloca o Rio em uma posição privilegiada para ajudar a aproximar essas duas agendas e defender que ciência oceânica, ação climática e resiliência das cidades costeiras avancem de forma integrada.

Em um momento em que um novo El Niño ganha força no Pacífico, essa conexão se torna ainda mais evidente e urgente.

A ciência climática avançou enormemente em nossa capacidade de antecipar riscos. A OMM resume bem a oportunidade que temos diante de nós: o momento para tomada de decisão, planejamento e preparação é agora.

O El Niño de 2026 será também um teste da nossa capacidade de aprender com aquilo que já vivemos.

Rio Grande do Sul, Amazônia e tantas outras regiões brasileiras mostraram o custo humano, social, ambiental e econômico dos extremos climáticos.

Não podemos impedir a ocorrência de um El Niño.

Mas podemos reduzir as vulnerabilidades, antecipar riscos e estar mais preparados para seus impactos.

Fenômenos naturais não precisam, necessariamente, se transformar em desastres na mesma proporção. A diferença está, cada vez mais, na nossa capacidade de prevenção, adaptação e resiliência.

Artigo de

Bernardo Egas

Secretário de Administração da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro

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